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01/10/2016 - 09:30 - Fonte: Moisés Batista

Reportagem do Gazeta leva consagrado cineasta italiano ao Vale

Ator, diretor e roteirista, Bellocchio vai conhecer a fazenda Alagadiço em Minas Novas, suspeita de ter abrigado Tommaso Buscetta, que comandou a Cosa Nostra, a máfia siciliana, entre os anos 1950 e 1980.A existência da fazenda foi revelada por reportagem do Jornal Gazeta em julho de 2000.

Foto: arquivo Reportagem do Gazeta leva consagrado cineasta italiano ao Vale
Marco Bellocchio é ganhador de diversos prêmios internacionais de cinema. Já dirigiu mais de 20 filmes.

 

Marco Bellocchio, 76 anos, um dos mais consagrados diretores de cinema italiano e parceiro de cineastas lendários como Pasolini, Bernardo Bertolucci e Jean-Luc Godard, desembarca no Brasil  neste mês,  e segue direto para o Vale do Jequitinhonha, onde permanecerá por dois dias.

 

A pedido da sua assessoria na Europa,  por medidas de segurança,  e para evitar assédio da imprensa, a data está sendo mantida em sigilo. Segundo informações publicadas pelo Jornal do Brasil, na última sexta-feira, 30 de setembro, o cineasta será  homenageado na 40ª Mostra Internacional de Cinema que acontece em São Paulo entre 20 de outubro e 2 de novembro.

 

Ator, diretor e roteirista, Bellocchio vai conhecer a fazenda Alagadiço em Minas Novas, suspeita de ter abrigado Tommaso Buscetta,  que comandou  a  Cosa Nostra, a máfia siciliana, entre os anos 1950 e 1980.

 

 Buscetta ( pronuncia-se busqueta) que  teve algumas passagens por solo brasileiro é  o personagem central  de “ O Traidor”, novo filme de Bellocchio.

 

No Vale do Jequitinhonha, o cineasta e sua equipe , vão se encontrar com o jornalista Sérgio Vasconcelos, editor do Jornal Gazeta de Araçuai, que  em 2000 revelou a existência da fazenda, onde acredita-se que Tommaso Buscetta tenha se abrigado para realizar uma plástica.

 

A fazenda, de 4 mil hectares, adquirida no início dos anos 70 pelo italiano Sanpietro Salini, possui um hospital, fábrica de laticínios, marcenaria, igreja, supermercados, escola e uma pista de pouso para aviões. Tudo está abandonado.  A mansão da sede, que possui biblioteca, escritório com suítes com saída para jardim, é hoje habitada por um antigo empregado e sua família.

 

 

O Traidor

 

 

O encontro do cineasta com o jornalista Sérgio Vasconcelos,  e a viagem ao Vale do Jequitinhonha,  já vinham  sendo costurados desde o mês passado pelos assessores de Bellocchio, em Portugal e Itália.

 

Marco Bellochio está escrevendo e dirigindo “O traidor", possível título para o filme sobre Buscetta,   com produção internacional  a ser  filmado na Itália, no Brasil e nos Estados Unidos e que  já está sendo comparado ao premiado “ O poderoso Chefão”, de Francis Ford Coppola, com Marlon Brando e El Paccino.

 

Bellochio, ganhador de vários prêmios do cinema internacional , já  dirigiu mais de 20 filmes, entre eles,  Vincere, que relata a conturbada vida de Ida Dalser, amante de Benito Mussolini e mãe do seu filho Benito Albino.

 

“ Conhecer um dos mais importantes atores e diretores do cinema italiano que se destaca  entre os maiores do mundo, como o Bellochio, é uma honra muito grande. Saber que ele leu  a minha  reportagem  sobre o  caso da Fazenda Alagadiço,  e se interessou por ela, é emocionante. Não tenho palavras para expressar isso”,  destacou Sérgio Vasconcelos.

 

 

Matéria sobre a fazenda foi escrita em julho de 2000

 

A  matéria do jornal Gazeta gerou ainda reportagens para as Redes de TV Record e Globo.

 

 

Mistério

 

A fazenda Alagadiço ainda hoje é um enigma . Localizada entre os municípios de Minas Novas e Capelinha, foi adquirida na década de 70 pelo italiano Sampietro Salini, criador da Fundação Pietro Salini. Após a morte de Thommaso Buscetta , em abril de 2000 em Nova York, tudo foi abandonado.

 

 

Em Minas Novas, corre à boca pequena que a fazenda pode ter sido usada pela máfia Siciliana por mais de 20 anos e que serviu de esconderijo para Buscetta , o maior mafioso da história da máfia .

 

 

Mansão hoje é ocupada por um antigo funcionário da fazenda e sua família

Mansão hoje é ocupada por um antigo funcionário da fazenda e sua família

 

 

Preso no Brasil em 1972 e condenado a 14 anos de prisão,  Buscetta  é extraditado  para os Estados Unidos e recebe do governo uma nova identidade e a liberdade vigiada  em troca de novas revelações contra os planos da  máfia norte-americana e italiana, ligada ao tráfico de  drogas.

 

 

Nos Estados Unidos, passa por cirurgias plásticas para depistar os numerosos "assassinos sob encomenda" que tem ao seu encalço, visto que colaborar com a justiça é, no meio mafioso, a mais grave das traições. É libertado em fevereiro de 1980.

 

 

“É provável que neste período tenha feito várias visitas à fazenda Alagadiço”, diz um historiador de Minas Novas.

 

 A fazenda possui aeroporto, que agora virou área de plantio de eucalipto, hospital, escola, supermercado e uma mansão com oito suítes. O hospital está fechado há anos. Ele possui 20 salas, 25 leitos, berçário, bloco cirúrgico, gabinete dentário, laboratório para análises clínicas e enfermarias.

 

 

 Em uma das salas da administração ainda estão guardadas mais de 8 mil fichas de pacientes da zona rural que foram atendidos pelos médicos italianos .

 

 

. “ Ganhar a confiança da população era importante para os negócios da máfia e por isso o hospital”, observa um delegado aposentado.

 

 

 

 

Atualmente a mansão construída no meio da mata, está ocupada pelo antigo administrador da fazenda, João Antonio Alves da Silva, 54 anos.

 

Ele revela que carregava as malas de Sanpietro, da pista de pouso para a mansão.

 

Segundo ele, o italiano recebia muitos políticos, entre eles, o ex-governador Francelino Pereira, o então ministro e senador Murilo Badaró (ja falecido), o ex-prefeito de Belo Horizonte, Mauricio Campos, entre outros.

 

 

" Há mais de 10 anos que não vejo mais ninguém ligado à Fundação", diz João Antonio.

 

Nas proximidades existem 5 casas que eram utilizadas pelos médicos e enfermeiras da Itália que viviam no lugar e atendiam a população. Hoje, cinco famílias ocupam os imóveis.

 

 

Terra de ninguém

 

Para que o italiano Sanpietro Salini, construiu toda aquela estrutura, num local deserto e de difícil acesso para depois, sem nenhuma explicação abandona-lo?

 

As respostas vão desde lavagem de dinheiro da máfia, uso do hospital para refino de drogas ou ainda , que o italiano ,que faleceu recentemente  em Roma,  era simplesmente um filho de milionário que recebeu do pai uma missão para fazer uma obra social em um pais de terceiro mundo.

 

Quem foi Buscetta

 

Nascido em Palermo, na Itália, Tommaso Buscetta, conhecido como Dom Masino, era o mais famoso dos "arrependidos", mafiosos que resolveram colaborar com a Justiça e denunciar companheiros.

 

Sua longa carreira de crimes começou a ter fim em 23 de outubro de 1983, quando foi preso em São Paulo. Já era sua segunda temporada no Brasil e, novamente, Buscetta foi extraditado por determinação do Supremo Tribunal Federal.

 

Ao saber que voltaria à Itália, em 3 de julho de 1984, tentou se matar, tomando estricnina. Ficou quatro dias num hospital, mas, no dia 15 daquele mês desembarcava na Itália, onde aceitou contar o que sabia sobre a máfia.

 

A partir daí, revelou o organograma dos clãs adversários e de seus aliados e entregou à polícia conhecidos personagens políticos. Quando a máfia matou o democrata-cristão Salvo Lima, do Parlamento Europeu, em 1992, disse: "Era um homem de honra" (um mafioso). Chegou a afirmar que Giulio Andreotti, diversas vezes chefe de Governo italiano, era o representante mais elevado da máfia na política.

 

Graças às suas revelações, foram condenados à prisão perpétua toda a direção da Máfia siciliana e 300 integrantes da organização.

 

Escoltado por policiais italianos, Tommaso Buscetta chega ao tribunal para depor contra a máfia

 

Buscetta fazia parte de um dos clãs perdedores da sanguinária guerra pelo poder dentro da Cosa Nostra, entre 1981 e 1983, vencida pelos corleoneses de Totó Riina, que passou a ser o chefe supremo até ser preso, em 1993.

 

Em 1968, já no Brasil, casou-se com Cristina Almeida Guimarães, sob o nome de Paulo Roberto Felici.

 

Em 2 de novembro de 1972 foi preso, acusado de tráfico internacional de drogas, e extraditado.

 

 Condenado pela Justiça de Catanzaro, ficou na prisão del Ucciardone, em Palermo, até 18 de fevereiro de 1980. Deixou a Itália novamente depois do assassinato de um mafioso do seu círculo, Stefano Bontade. Voltou ao Brasil em janeiro de 1981 com uma licença concedida a seu sogro para desmatar um pedaço da floresta equatorial próximo a Belém

 

 Buscetta decidira colaborar com o juiz Giovanni Falcone — assassinado pela máfia em 1992 — depois que os corleoneses mataram dois de seus filhos e mais de 20 parentes.

 

Em 1986, foi extraditado para os Estados Unidos. Graças a sua colaboração contra as ações da máfia naquele país, obteve nacionalidade, uma nova identidade e proteção do programa de testemunhas para ele e sua família. Buscetta morreu em 2000, aos 71 anos, de leucemia e câncer ósseo.

 

 

 

Moisés Batista, especial para o Gazeta, com informações de " O Globo "  Jornal do Brasil e Gazeta de Araçuai