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08/10/2018 - 20:29 - Fonte: El Pais

Nem Anastasia nem Pimentel: a nova direita cresce no vácuo de lideranças em MG

Com Aécio Neves ‘rebaixado’, segundo maior colégio eleitoral do país perde protagonismo com uma entressafra de políticos de grande projeção. Zema, o outsider, surfa na onda Bolsonaro

Foto: divulgação Nem Anastasia nem Pimentel: a nova direita cresce no vácuo de lideranças em MG
Romeu Zema, do NOVO, desbancou Anastasia e Pimentel no primeiro turno

Há quatro anos, Aécio Neves desfilava pelas ruas cercado de correligionários, tucanos de alta plumagem e do amigo Ronaldo Fenômeno ao despontar como sensação da última corrida presidencial.

 

A tímida campanha para deputado federal em Minas Gerais, elegendo-se com pouco mais de 100 mil votos, em nada fez lembrar o político que contabilizou mais de 50 milhões de eleitores em 2014. Sua derrocada após o escândalo de corrupção da JBS deixou não apenas dívidas e o espólio de rejeição para o PSDB administrar nestas eleições, mas também uma lacuna de lideranças emergentes no segundo maior colégio eleitoral do país.

 

Somada à crise de representatividade, o vácuo potencializou não só uma votação expressiva ao presidenciável de extrema direita Jair Bolsonaro, do PSL, como catapultou na reta final o nome de Romeu Zema, do NOVO, ao posto de mais bem votado ao Governo, com mais de 4,1 milhões de votos. A ascensão de Romeu Zema, que chegou a gerar saia-justa em seu partido ao fazer lobby por Bolsonaro no último debate antes da votação, reflete o declínio das duas forças antagônicas do Estado.

 

Embora siga atuante nos bastidores e tenha recebido a maior verba do fundo partidário entre os candidatos tucanos ao parlamento em Minas (2 milhões de reais), Aécio foi escanteado do palanque e da propaganda eleitoral de Antonio Anastasia, seu sucessor no governo em 2010, que, depois de embarcar a contragosto numa nova candidatura estadual, agora tentará salvar o errático percurso do padrinho político em um segundo turno indigesto. Liderou as pesquisas à frente do atual governador Fernando Pimentel (PT), mas angariou 1,3 milhão de votos a menos que Zema. Reconhecido pelo perfil técnico e avesso à confrontação, Anastasia se viu obrigado a subir o tom no discurso antipetista para não destoar da estratégia nacional do PSDB. Precisará ampliar seu repertório ao se deparar com um adversário inesperado.

 

A DERROTA DE PIMENTEL

 

 

Fernando Pimentel encerrou sua campanha em Araçuai, no Vale do Jequitinhonha

Do outro lado, Pimentel tentou preencher os flancos descobertos de um governo problemático, essencialmente pelos atrasos de salário do funcionalismo público, com a obstinada tentativa de associar Anastasia a Aécio. A coligação do tucano entrou com ação no Tribunal Regional Eleitoral (TRE-MG) para retirar do ar uma peça da chapa adversária que atrelava os dois senadores. Com uma gestão marcada por dificuldades financeiras, greve de professores e respingos da Operação Acrônimo, que o denunciou por corrupção passiva e lavagem de dinheiro, o governador petista não conseguiu emplacar a reeleição mesmo em um cenário inconveniente à oposição afetada pela agonia de Aécio.

 

 

Para um Estado onde se projetaram, além de Aécio, caciques de relevo nacional do calibre de Afonso Pena, Juscelino Kubitschek, Tancredo Neves, José Alencar e Itamar Franco, a quebra da polarização entre PT e PSDB, sem muito entusiasmo das militâncias, é um símbolo de decadência da política mineira tradicional – embora,  o retrato local reflita o “quadro geral no país” de escassez de líderes notáveis.

 

 

Zema disparou na reta final após colar sua imagem à de Bolsonaro.

 

Ao aproveitar o pouco tempo de televisão para bater na “velha política”, Romeu Zema se firmou como alternativa à polarização e tirou Pimentel do segundo turno. Dono de uma rede de lojas e postos de gasolina, o empresário de Araxá recorre a práticas heterodoxas, como o compromisso de abrir mão do salário de governador caso seja eleito, para contrapor a falta de traquejo em sua primeira eleição a um cargo público. Além de ter adicionado o discurso antipetista ao seu arsenal para surfar na onda bolsonarista que triunfou no Estado. Outros rostos incipientes ainda constroem seu cacife político. Entre as mulheres, se destaca Áurea Carolina, 34, do PSOL, vereadora mais bem votada de Belo Horizonte em 2016 e uma das idealizadoras do movimento Muitas, que prega a ocupação da política pelos ativistas sociais. Por enquanto, ela se aventurou apenas a uma cadeira na Câmara como candidata a deputada federal. Elegeu-se com a quinta maior votação (162.740 votos).

 

Dilma Roussef em Araçuai.

Já Dilma Rousseff, depois de conseguir evitar a barração de sua candidatura na Justiça eleitoral e liderar a corrida pelas duas vagas no Senado, ficou em quarto lugar. Mineira, mas com carreira pública pavimentada no Rio Grande do Sul, a ex-presidente era a cartada do PT para revigorar as bases do partido em Minas Gerais.

 

Pesaram contra ela, entretanto, a ausência de lastro na política local, sobretudo no interior do Estado, e a resistência de uma ala de petistas ligadas a Pimentel. Próximo de Dilma e um dos ministros de seu governo, o ex-prefeito Patrus Ananias foi cogitado para a segunda vaga a senador na chapa petista. Porém, aos 66 anos, já sem a mesma envergadura articuladora de outras épocas, preferiu buscar a reeleição a deputado federal. “O tempo do Patrus passou”, afirma Carlos Ranulfo. “Ele foi um quadro mal trabalhado pelo PT.”

 

Ao contrário de 2014, quando dois mineiros disputaram o segundo turno da eleição presidencial, Minas não teve nenhum representante nem mesmo entre os vices das 13 candidaturas a presidente. Visto como fiel da balança nas últimas eleições, tem seus palanques esvaziados em ambas as forças até então dominantes do Estado. Militantes petistas acreditavam que Pimentel sairia fortalecido se revertesse o rumo eleitoral desfavorável, com estofo para ocupar a cadeira de sumidade deixada por Aécio. O tombo no primeiro turno e a derrota de Dilma representam um baque na estrutura do PT mineiro. Sem clima, o partido cancelou até a coletiva de imprensa prevista para Pimentel na noite de domingo.