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22/03/2019 - 14:47 - Fonte: Gazeta de Araçuai

Mineração ilegal, desmatamento,esgoto e lixo ameaçam rios do Vale do Jequitinhonha

Falta de projetos de preservação, descaso governamental e avanço do garimpo ilegal colocam em risco os mais importantes rios do Vale do Jequitinhonha.

Foto: Bruno Lages Mineração ilegal, desmatamento,esgoto e lixo ameaçam rios do Vale  do Jequitinhonha
Rio Araçuai, afluente do Jequitinhonha está ameaçado pelas agressões humanas

 

 

 

A devastação do  Rio  Jequitinhonha, cenário que inspira música, artesanato e formas de cultivo, avança em direção à cabeceira, que começa a ser castigada pouco mais de um quilômetro depois de brotar nos chapadões do cerrado mineiro, onde o rio começa sua saga de mazelas ambientais e sociais até chegar à Bahia e desaguar no mar, na altura do município de Belmonte, depois de percorrer 1.082 km.

 

 

Nascente do Rio Jequitinhonha, no Pico do Itambé, na Serra do Espinhaço, em Serro.

 

O isolamento manteve praticamente intocada a nascente do Rio Jequitinhonha, no Serro, a 320 quilômetros de Belo Horizonte. Mas ela desce cristalina, sem a ação nociva do homem por apenas 1.300 metros. Já nessa altura, o igarapé precisa transpor a canalização do aterro da rodovia BR-259, onde recebe resíduos carreados da via, como combustível, óleo e cargas que vazam pelas canaletas de drenagem. Passados mais 10 quilômetros, a paisagem da nascente dá lugar ao fluxo intenso de esgoto do distrito de Pedro Lessa, que é carregado pelo Córrego Acabassaco e mancha o manancial com mais poluentes.



A derrubada das matas que levavam até a área da nascente do Rio Jequitinhonha e o lançamento de esgoto, lixo, garimpo ilegal e animais mortos em seus afluentes, estão afetando o modo de vida de  milhares de moradores da região.



Nos últimos anos, o mau cheiro e a imundície têm descido as corredeiras do Córrego Acabassaco com cada vez mais volume, chegando até o Rio Jequitinhonha.

 

 

Cachoeira do Sumidouro na nascente do Rio Araçuai, na Serra do Gavião, em Diamantina.

 

O Rio Araçuaí, maior afluente do Jequitinhonha, também é o retrato de algumas dessas agressões e está ameaçado pelas dragas da extração de areia, pelo lançamento de esgoto, desmatamento das matas ciliares e pelo lixo jogado nas suas margens, como ocorre no município que divide com o rio seu nome e seus detritos.

 

Córrego São Domingos, em Virgem da Lapa.

 

A situação  vem se  agravando com o desaparecimento de muitos córregos da região que são afluentes do Rio Araçuai. Um deles é o São Domingos, que atravessa a área urbana de Virgem da Lapa. Ali, uma grande ponte revela que um dia o São Domingos correu forte. Hoje, a travessia virou viaduto: debaixo dela sobrou um imenso leito seco. Onde falta água, agora sobra lixo e esgoto. Por causa do cultivo do eucalipto, desmataram áreas perto da nascente. Acabaram com a biodiversidade e com a água”, afirmam os moradores.

 

Rio Jequitinhonha percorre 1.082 km até desaguar no mar em Belmonte, na Bahia.

 


O último levantamento do Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), mostra que o Índice de Qualidade das Águas (IQA) bom do Jequitinhonha caiu de 50% para 42% .

 

Os fatores que mais contribuíram para os índices foram o lançamento de esgoto e o mau uso do solo. A barragem de Irapé contribuiu para aumentar a vazão do Jequitinhonha e facilitou o trabalho de um grupo de mulheres que integram o cenário do rio: as lavadeiras. Mas a usina que beneficiou as lavadeiras incomoda os pescadores. “Depois da usina, os peixes sumiram”, protestam. Os pescadores  dizem  não encontrar mais espécies como piau, piabanha e surubim.

 

 

Material que poderia ser reciclado está indo parar no leito do rio Araçuai,devido a ineficácia da prefeitura no recolhimento do lixo e ausência de campanhas educacionais..

 

Mais agressões

 

Nas margens altas dos rios Araçuai e Jequitinhonha, grandes plantações de banana, capim e eucalipto estão substituindo  áreas de proteção permanente (APP) que vão sendo engolidas pelo desbarrancamento e as erosões.

 

A devastação que sofre a Bacia do Jequitinhonha, com desmatamento, invasões, lixo, esgoto e garimpo ilegal é um resumo da grande dificuldade que se tem em regenerar as suas áreas de preservação, mesmo sendo esse o mais importante manancial de abastecimento da região. 

 

Garimpo de Areinha, no rio Jequitinhonha, nas proximidades de Diamantina.

Um dos maiores desafios para se recompor as  áreas degradadas é reverter o desmatamento histórico trazido pela ocupação dessas áreas, para dar lugar às pastagens e acabar com o garimpo ilegal, principalmente na região do Alto Vale do Jequitinhonha, que assassina o rio um pouco por dia.

 

Para o engenheiro Josias Gomes Ribeiro, natural de Araçuai e membro do Comitê da Bacia Hidrográfica do Jequitinhonha, são décadas de desprezo, agressões e crimes ambientais aos nossos rios Araçuaí e Jequitinhonha. "E claro ,essa brutal estiagem e seca dos últimos anos, podem levar tempo para a completa revitalização .Mas temos que começar imediatamente", diz o engenheiro. 

 

Segundo ele, uma das propostas é construção de barragens ao longo dos seus 397 km de extensão do rio Araçuai que banha 19 cidades e abastece 23  municípios da região. “ Já existe estudos preliminares para três barragens. Creio que uma Audiência Pública bem trabalhada e convocada pela Assembléia Legislativa poderá alavancar esse processo. Contamos para isso com os deputados majoritários na região da Bacia”, acredita Gomes Ribeiro.

 

 

Barragem de Irapé no Rio Jequitinhonha, em Berilo

 

Deputados se manifestam

 

No  Dia Mundial da Água ( 22 de março ) criado pela Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas(ONU), o deputado estadual dr. Jean Freire (PT),  filho do Vale do Jequitinhonha, ocupou a tribuna da Assembléia Legislativa, para denunciar a grave situação dos mananciais de água do Vale do Jequitinhonha. Ele lembrou que apesar da região estar no semiárido, as chuvas chegam mas que a água é mal aproveitada porque não há dispositivos para armazena-la. Ele condenou a proliferação de poços artesianos que podem afetar gravemente os lençóis freáticos e que a solução seria a construção de pequenas barragens.

“ Existem barragens para irrigar plantações de eucalipto mas não para matar a sede do povo. Os córregos estão morrendo. Em Lelivéldia, povoado de Berilo a 7 km da Hidrelétrica de Irapé, a população ainda sofre com a falta de água. Agora querem construir um mineroduto para retirar o minério de ferro da região, com a água de Irapé.Um absurdo”, disse o deputado, argumentando que é preciso fortalecer os Comitês das bacias hidrográficas para salvar as águas.

 

O deputado federal do Podemos, Igor Timo, também filho do Vale do Jequitinhonha, percorreu a região e afirmou que sua maior preocupação é com a preservação das nascentes e que vai defender projetos neste sentido.

 

Sérgio Vasconcelos

Repórter