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10/09/2019 - 09:57 - Fonte: Gazeta de Araçuai

UFVJM, conclui estudo sobre turbidez no rio Setúbal, afluente do Araçuai

A partir de 2012 água começou a modificar a coloração com tonalidade amarelo tijolo e até hoje não houve retorno da água limpida no espelho d' água do lago e tampouco no leito do rio.Prefeito de Jenipapo de Minas quer que governos da União e do Estado colaborem com a prefeitura na adoção de medidas compensatórias.

Foto: arquivo UFVJM, conclui estudo sobre turbidez no rio Setúbal, afluente do Araçuai
Erros na construção da barragem do Setúbal provocaram impactos ambientais na região.

 

 

A pedido da prefeitura  de Jenipapo de Minas, uma equipe de professores da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM) finalizou  os estudos sobre os impactos ambientais provocados pela Barragem do Rio Setúbal, localizada  nos limites dos municípios de Jenipapo de Minas e Chapada do Norte, no Vale do Jequitinhonha (MG). Os estudos foram iniciados em novembro de 2018 e concluídos em setembro último.

 

A barragem com área inundada de pelo menos 980 hectares, e com capacidade para acumular 130 milhões de metros cúbicos de água, foi  finalizada em 2010 e custou aos cofres públicos, R$ 197  milhões.

 

O que era para ser uma redenção , se transformou numa enorme dor de cabeça, provocando uma série de impactos ambientais na região.

 

Águas do rio Setúbal que eram cristalinas, se transformaram em um espelho avermelhado.

 

Águas turvas

 

 Dois  anos após o enchimento do reservatório, as águas da barragem foram se tornando avermelhadas, com aspecto de sujas  e barrentas, comprometendo a qualidade de vida em todo o o percurso do rio Setúbal que deságua no rio Araçuai.

 

 Para os biólogos e especialistas , dificilmente a água do Setúbal voltará a ser límpida e cristalina como antes,  e por tabela, um longo trecho do rio Araçuai,  que também está  comprometido.

 

A obra foi construída pelo Governo de Minas Gerais, através da Ruralminas, que deixou de cumprir uma série de condicionantes. “ Até hoje, a barragem não possui Licença de Operação (LO) expedida por órgão ambiental competente”, destaca o prefeito  Carlos José de Jesus  Sena, o Coca(MDB).

 

Preocupado em buscar saídas e alternativas de soluções para os impactos negativos , o prefeito decidiu encomendar à UFVJM, estudos técnicos para identificar os problemas e definir ações para a correção.

 

 

Barragem do Setúbal em Jenipapo de Minas não possui Licença de Operação.

 

De posse do relatório que identificou  os fatores que estão  contribuindo  com a degradação do Setúbal, o prefeito está cobrando dos governos federal e estadual, ações urgentes  para a correção dos problemas. “ Trata-se de um projeto que não fica por menos de R$ 9 milhões. A prefeitura não possui esses recursos”, lamenta o prefeito, afirmando que pagou à UFVJM,  cerca de R$ 12 mil reais para realizar o diagnóstico.

 

 

Ele destaca que é preciso construir pequenos barramentos  no entorno da barragem, para conter as enxurradas de lama que deságuam no lago, nos períodos chuvosos,  e fazer o cercamento  da área para evitar a permanência de animais, além  da recomposição das matas ciliares . “ Foram retiradas toneladas de terra  à montante da  represa, o que provocou erosões. A terra ficou desnuda, sem cobertura vegetal. Quando chegam as chuvas, toneladas de lama vão  para o lago”, explicou.

 

De acordo com o  vereador e técnico em agropecuária, Stênio Guedes, que trabalhou na obra, houve uma tentativa mal sucedida de recuperação da mata, através do plantio de mudas. Ele era responsável pelo setor do meio ambiente. “Foram plantadas cerca de 90 mil mudas de espécies nativas mas a empresa construtora não cuidou da irrigação e tudo ficou perdido”, informou o vereador.

 

Turbidez das águas do rio Setúbal compromete qualidade do abastecimento de água de Jenipapo de Minas.

 

A situação é tão complexa, que a Copanor, empresa responsável pelo abastecimento  público de água de Jenipapo de Minas, não consegue atender os valores aceitáveis em relação à turbidez da água, inviabilizando o seu tratamento, sendo alvo inclusive de ação do Ministério Público.

 

 

Mesmo tendo os estudos ambientais apontado sérios problemas erosivos e centenas de fontes de contaminação das águas do rio Setúbal, devido à proximidade de currais, tanto a Ruralminas, responsável pela obra,  como o Instituto Estadual de Florestas – IEF recusaram-se a considerar que esses problemas teriam de ser solucionados antes da construção da barragem, visando inclusive garantir a qualidade de suas águas.

 

 “Na verdade, a barragem de Setúbal é um empreendimento calcado em interesses políticos e eleitoreiros, desconsiderando os impactos ambientais e sociais que iria causar”, afirma a ambientalista Maria Dalce Ricas, da Associção Mineira do Meio Ambiente (AMDA).

 

Se a intenção fosse realmente solucionar problemas de abastecimento humano e criar condições para irrigação, como afirmou  a Ruralminas, o empreendimento seria planejado considerando as condições da bacia do rio e seus impactos diretos e indiretos”, observa a ambientalista.

 

Caminhão que seria utilizado para transportar peixes e facilitar a piracema permanece no pátio da prefeitura.

 

“ Tudo está abandonado. O caminhão que seria utilizado para o transporte de peixes durante a piracema, está  no pátio da prefeitura. Não existe sequer energia na barragem, para possibilitar o funcionamento do motor para fazer a transposição dos peixes. É mais uma responsabilidade que a Ruralminas não cumpriu”, lembra José Celso Leite, vice-prefeito da cidade. Para ele, as cidades atingidas precisam se unir. “ Culpam a barragem do Setúbal pelos problemas no rio Araçuai. Precisam ser construídas barragens nos afluentes do rio e recompor as matas ciliares”, diz José Celso, lamentando que as audiências públicas realizadas para debater a questão até o momento não serviram para nada. “ Precisamos agora é de ação”, cobra.

 

Coloração turva da água do Setúbal atingiu o rio Araçuai.

Prejuízos

A construção da barragem desalojou  170 famílias que foram reassentadas em duas agrovilas, sendo que uma delas, fica localizada em área do município de Chapada do Norte e a outra em Jenipapo de Minas. “ Existem muitos atingidos que não foram indenizados até hoje. O que fizeram com os pequenos agricultores foi um crime. Eles foram retirados das margens do rio Setúbal e levados para uma chapada onde não há água. Atualmente eles passam por sérios problemas de abastecimento de água”, lembra o prefeito Coca.

 

 

Lula e o então ministro Geddel Vieira Lima, na inauguração da barragem, em janeiro de 2010. Ambos estão presos.

 

As obras da barragem do Setúbal custaram R$ 197 milhões, sendo R$ 180 milhões do governo federal, por meio do Ministério da Integração Nacional e R$ 17 milhões do Governo de Minas

 

O projeto da barragem do Setúbal teve início em 1989, pelo Governo do Estado, por meio  da Ruralminas, órgão atualmente extinto.


A construção foi paralisada devido às resistências do MAB - Movimento de Atingidos pelas Barragens. Houve questionamentos desde superfaturamento da obra,  destino dos atingidos pela barragem, assim como objetivos sociais e impactos ambientais.


As obras foram retomadas em 2006 e a barragem foi inaugurada em 2010 pelo então presidente Lula.

 

 

Sérgio Vasconcelos

Repórter