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09/10/2019 - 10:00 - Fonte: ALMG

Suicídio de PM em Araçuai será levado ao judiciário

O questionamento judicial a respeito da conduta da instituição e mudanças em normas foram propostas em audiência.

Foto: Sarah Torres Suicídio de PM em Araçuai será levado ao judiciário
Suicídio de cabo da PM motiva reações de parlamentares, durante audiência na Assembléia Legislativa

 

 

O deputado Sargento Rodrigues anunciou que vai levar o caso do suicídio do Cabo  Leandro Cardoso Novais, ocorrido em Araçuai,  ao Poder Judiciário. Conforme o deputado, o questionamento judicial da conduta institucional da Polícia Militar poderá de, alguma forma, forçar a instituição a enfrentar o cenário de sofrimento mental que tem acometido policiais, levando alguns até mesmo ao autoextermínio.

 

O parlamentar afirmou que são necessárias alterações legislativas, revisão das próprias diretrizes internas da PM e de sua cultura institucional

 

 

Alegando perseguições da PM, o Cabo Leandro Cardoso se matou na noite de 16 de outubro em Araçuai.

 

O cabo da Polícia Militar de Minas Gerais, Leandro Cardoso Novais, já havia sido internado em hospital psiquiátrico por 37 dias e recorrentemente manifestava a intenção de tirar a própria vida, no entanto, chegou a ter atestado médico negado pela instituição.

 

No dia 10 de setembro de 2019, ele recebeu sua arma de volta e retornou à atividade policial. No último dia 16 de outubro, Leandro apontou a pistola para si, apertou o gatilho e se matou, na casa onde morava há pouco tempo, em Araçuai, no Vale do Jequitinhonha.

 

O relato foi apresentado, nesta quinta-feira (7/11/), por Denísia Barreiro da Costa Novais, viúva do policial, durante audiência da Comissão de Segurança Pública da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG). A reunião, solicitada pelo deputado Sargento Rodrigues (PTB), apurou os fatos que antecederam o suicídio do cabo.

 

Leandro Cardoso Novais, que também deixou dois filhos, residia em Teófilo Otoni (Vale do Mucuri), onde atuava na 15ª Região da PM. Após ter sido submetido a processo disciplinar, devido à acusação de fazer "bico" para complementar a renda, foi punido administrativamente. Em seguida, foi transferido para a 14ª Cia Independente, em Araçuaí (Vale do Jequitinhonha), por ordem do coronel Sérvio Túlio Mariano Salazar, à época, comandante da 15ª RPM.

 

Desde então, segundo Denísia Novais, o marido começou a apresentar quadro severo de depressão e o ímpeto de cometer suicídio. Ela resgatou o histórico de consultas, laudos, exames, indicações de tratamentos psicológico e psiquiátrico e internação de Leandro e afirmou que ele se sentia extremamente infeliz e perseguido no âmbito da corporação.

 

Denísia conta que buscaram reverter a decisão junto à Polícia Militar, mas não obtiveram sucesso. Ela afirma que Leandro recebeu o “recado” de que se houvesse insistência, ele poderia ser transferido para cidade ainda mais distante de Teófilo Otoni. A distância entre a sua residência e o novo local de trabalho era de aproximadamente 230 km.

 

Por fim, eles apostavam na resolução do impasse pela via judicial, “mas Leandro não suportou esperar pela decisão”, lamentou Denísia.

 

Irmã e cunhado do Cabo Novais, choram durante a audiência.

 

A irmã do policial, Débora Cardoso Novais, leu, emocionada, o laudo psiquiátrico que descreveu o estado de extremo sofrimento do policial.

 

Irmã e esposa ressaltaram que, em parte, o quadro de insônia, agitação motora, ansiedade exacerbada, perda de peso considerável, além das ideias de suicídio, se deve também “à desconfiança da instituição de que ele estaria fingindo-se adoecido para não trabalhar em Araçuaí.

 

Denísia contou que, após o esposo chegar em Teófilo Otoni em surto, ela o levou ao atendimento psiquiátrico. O médico que o atendeu quis interná-lo e afastá-lo por 30 dias do trabalho. Ela afirmou que, nessa ocasião em especial, o atestado apresentado à PM, não foi aceito pela instituição. 

 

A viúva do cabo Leandro Novais pediu a ele que não retornasse às atividades depois que o marido se considerou exaurido pela situação. “Eles querem que eu diga que estou bem e eu vou dizer”, segundo ela, essas foram as palavras que a deixaram em alerta. O policial recebeu de volta a pistola e os cartuchos de munição que haviam sido recolhidos durante o período em que esteve afastado do serviço operacional. “Este foi o atestado de óbito dele”, lamentou Denísia Novais.

 

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Representantes das entidades de classe dos policiais também se manifestaram quanto à necessidade de se criar, ao menos, critérios para pautar essas transferências. O policial Álvaro Rodrigues Coelho, presidente do Centro Social dos Cabos e Soldados da Polícia Militar e Bombeiros Militares de Minas Gerais, sugeriu que o deslocamento do policial em relação à sua residência observasse um limite entre 50 e 60 km.

 

 

Denísia Novais, viúva do Cabo Novais

 

Comandantes da PM afirmam que cabo recebeu assistência

 

O coronel Sérvio Túlio Mariano Salazar, que ordenou a transferência de Leandro Novais para Araçuaí, reconheceu que a medida foi baseada em normas da Polícia Militar. 

 

Ele conta que o objeto da punição ao policial não se restringia à pratica de “bico”, mas que implicava desvio considerado mais grave. O comandante, contudo, não esclareceu do que se tratava. Sérvio Salazar afirmou que não foi procurado pelo cabo ou por qualquer familiar para tratar da transferência e que o encaminhou à Clínica de Psiquiatria e Psicologia da Polícia Militar assim que teve conhecimento do seu quadro.

 

Já, em fevereiro de 2019, assumiu o comando da corporação (14ª Cia. PM Independente), em que estava lotado Leandro Novais, o major Rafael Duarte Muniz. Ele contou que, ao longo do período, nunca criou obstáculos para que o policial realizasse o tratamento. O major afirmou, ainda, que, durante o tempo em que Leandro esteve na ativa, colocou o policial “na melhor escala possível”, como plantonista, para que pudesse folgar dias consecutivos e permanecer mais tempo junto à sua família em Teófilo Otoni.

 

Ele explicou também que, em 9 de setembro de 2019, recebeu parecer do setor responsável pela avaliação psquiátrica na PM, atestando que o policial estava apto a regressar à atividade operacional. 

 

O cabo teria dito ao seu chefe imediato, o tenente Borges, o seguinte: “Vivi um período muito tempestuoso e sombrio dentro de mim, mas, agora, estou pronto para o serviço”. Foi o que o tenente teria informado ao major Rafael Muniz.

 

A tenente Sumara Sucupira de Aguilar, perita do 44º Batalhão de Polícia Militar e cardiologista, que atendeu Leandro Novais durante o período, no entanto, disse que tinha ciência de que o caso dele era complexo e que exigia tratamento especializado. Ela conta que não chegou a homologar um dos atestados dele, porque entendeu que o simples afastamento não era suficiente, encaminhando-o para a internação imediata.

 

O coronel Sérvio Túlio Mariano Salazar, que ordenou a transferência de Leandro Novais para Araçuaí e Major Muniz, Comandante da PM em Araçuai

 

Perseguição –

 

 O tenente Fabiano Marinho, subcomandante da 14ª Cia. PM Independente, foi acusado pela esposa e irmã de Leandro Novais de ter empreendido contra o cabo atos de assédio moral. Elas afirmaram que o familiar teria dito várias vezes que esteve a ponto de matar o tenente. "Mas ele preferiu tirar a sua própria vida do que carregar esse crime nas costas", disse Débora Novais. 

 

Sargento Rodrigues afirmou que já recebeu outras denúncias contra o subcomandante e cobrou apuração rigorosa das mesmas.

Marinho disse que é alvo de “denuncismo” e afirmou que continuará fazendo o seu trabalho, investigando desvios dos próprios pares. Também ressaltou que mantinha com o cabo um relacionamento próximo e amigável.