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12/07/2020 - 07:37 - Fonte: Gazeta de Araçuaí

O encontro de Chico Buarque, com a bordadeira Marli de Jenipapo de Minas

a bordadeira Marli de Jesus Costa, foi surpreendida com a mensagem do compositor e pelos versinhos cantados por ele

Foto: divulgação O encontro de Chico Buarque, com a bordadeira Marli de Jenipapo de Minas
Marli de Jesus Costa mora em uma comunidade rural do Vale do Jequitinhonha

 

Oi Marli! Chico Buarque.Tô te mandando versinhos também.Beijo!”.

Moradora de uma comunidade rural no município de Jenipapo de Minas, no Vale do Jequitinhonha, a bordadeira Marli de Jesus Costa, foi surpreendida com a mensagem do compositor e pelos versinhos cantados por ele “Durante a noite inteira escuto como quem sonha a Marli bordadeira, lá de Jequitinhonha

 

A arte conhecida como “jogar versos”  vem ganhando  lonjura por meio do projeto Versinhos do Bem-Querer criado pela ONG Ajenai,-  Associação Jenipapense de Assistência à Infância - de Jenipapo de Minas .

 

Jogar verso, como se diz no Vale do Jequitinhonha, é uma tradição de toda a gente que vive nessa região tão isolada de Minas Gerais. Em festas, nas celebrações de colheita, nos encontros das comunidades,  as pessoas se juntam para cantar as rodas de verso.

 

Funciona assim: todos  presentes na roda  cantam juntos um refrão, que é entremeado de versos. Os versos são "jogados" individualmente, e podem ser cantados de improviso ou fazer parte de um repertório tradicional. Compostos por quadrinhas de 4 versos, com sete sílaba cada um, a rima acontece na sílaba tônica das últimas palavras do 2˚ e do 4˚ versos.

 

“O projeto foi pensado para gerar renda para as comunidades durante o isolamento social. São pessoas que moram em regiões de difícil acesso e com poucos recursos. Agregamos valor a esse saber e valorização de seu saber e sua arte”, comenta Viviane Fortes, coordenadora do projeto Mulheres do Jequitinhonha e do projeto Versinhos de Bem-Querer, ambos da ONG Ajenai.

 

O retorno tem sido excepcional e não poderia ser diferente. As ‘jogadoras de versos’ têm um talento de improviso nato e criam versos que emocionam, motivam e homenageiam. Os pedidos são feitos pelo site www.versinhos.com.br. A pessoa informa o nome de quem vai receber o verso e conta um pouco sobre as qualidades que deseja ressaltar em quem vai receber o mimo. O pedido é encaminhado para uma das ‘jogadoras de versos’ que vai criar e enviar o áudio. Os versinhos personalizados custam  R$ 26,00.

 

“Ao comprar um versinho, você entra na brincadeira e ajuda a espalhar a alegria e a beleza da cultura do Vale. E ainda contribui para que essas famílias possam passar por esse período de pandemia com maior segurança. Não tem como não se emocionar com a simplicidade, pureza, delicadeza e amorosidade dos versinhos. As pessoas nos retornam agradecendo emocionadas e impactadas com a força e beleza dessa cultura popular”, conta Viviane.

 

Alguns depoimentos dizem o seguinte: “Essas mulheres cantam com o coração”. “É muita emoção, beleza, delicadeza, carinho”. “Os versinhos traduzem exatamente a pessoa. O mundo está precisando disso”.

 

 

Compositor Chico Buarque

 

Versos chegam a Chico Buarque

 

E Marli de Jesus Costa, 41, moradora da comunidade Curtume, que pertence a Jenipapo de Minas, recebeu a incumbência de compor versinhos para ninguém menos que Helena Buarque de Holanda. Aproveitou o ensejo e ‘jogou versos’ para o pai, Chico Buarque de Holanda.

 

“Vou tirar minha despedida no pé de alecrim, hoje eu canto pro Chico com muito carinho. Ele é compositor, outro igual ele não tem, parece um cravinho roxo no biquinho do quenquém. Ele é amigo do Lula, ama o povo brasileiro. Esse é o Chico Buarque, é um homem verdadeiro. A lua já vem saindo de trás do pé de fulô, não é lua não é nada é Chico puro amor. Joguei meu barquinho n’água com carinho e muito amor. Chico você é bonito cai que nem sereno na flor”.

 

O que ela não contava é que o compositor respondeu com uma cantiga: “Durante a noite inteira escuto como quem sonha a Marli bordadeira, lá de Jequitinhonha”. E houve tréplica da Marli: “Bonito o Chico falou, bonito eu vou responder, um amor fora do outro faz o coração doer”.

 

Marli conta que depois desse projeto sua vida mudou bastante. “Os versos fazem bem para as pessoas que escutam e se emocionam. Eu dou graças a Deus. É preciso saber rimar, combinar as palavras e cantar em verso a personalidade da pessoa”, ensina.

 

 

Versinhos retratam histórias e exemplos de vida

 

Kárem Antônia Ferreira é uma jovem de 19 anos, moradora de Ribeirão de Areia, município de Jenipapo de Minas. “Comecei ainda adolescente nas fogueiras e encontros. Amo cantar músicas tradicionais e também criar e faço parte do Coral Ribeirão de Areia. Os versinhos têm ajudado as pessoas neste momento de pandemia, há muitos idosos e pessoas solitárias que precisam de um alento. Fico especialmente emocionada quando crio para avôs, pois perdi duas avós recentemente. Fico muito gratificada quando recebo o retorno das pessoas. É maravilhoso”, conta.

 

Grace Matos, 37, mora em Araçuaí. “Jogar versinhos é uma bênção, e com o projeto estou tendo renda, pois sou mãe do Orfeu (8 anos) e da Valentina (7 anos). Este é um saber tradicional que faz parte de nossas vidas. Jogo versos com amor, mas sou muito chorona e me emociono com os retornos e a gratidão das pessoas”, diz.

 

Um versinho encomendado que a marcou foi feito para uma moça que foi deixada novinha em um abrigo, saiu de lá aos 18 anos e é advogada. “Atualmente, ela luta contra um câncer raro, mas nunca mostra desânimo. Fiquei muito sensibilizada”, comenta.

 

Grupo de Bordadeiras de Jenipapo de Minas

 

Os grupos Bordadeiras do Curtume e Tecelãs de Tocoiós, que integram o projeto Mulheres do Jequitinhonha, foram convidados pelo Circuito Cultural UFMG para apresentação online de uma roda de versos.

Anote na agenda:

 

Após essa data, a roda de versos ficará disponível no YouTube por tempo indeterminado.

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